18 Maio 2011

O TRATADO DA PEDRA

XII

O jaguar saiu do mar imaculado; trazia em suas patas de jaspe a estrela roubada, dentro da estrela o abraxas; num segundo o jaguar rasgou a estrela e atacou o abraxas, abrindo-lhe o peito, espalhando as plumas - do sangue do abraxas se formou a América, de seus olhos os cometas, de suas serpentes a África, de suas penas as asas dos poetas, de sua língua a confusão entre os éons e o tempo.
Então o jaguar se escondeu nas florestas da América; começara, fora sua a tarefa mais dura, libertar o abraxas. Guardou o ar que o galo expulsara nos estertores e as canções bífidas das serpentes, para quando o mundo se cansasse de si e precisasse de novas canções e um ar de fecundar primaveras.
Por último, espalhou os ossos do abraxas em partes infinitas e depositou em cada pedra, sólida ou líquida, deixando ali o sinal da ave e da serpente - anseios que se cruzam formando o 
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XIII
Não quero fazer um exórdio. As pessoas não querem saber o que lhes falta, como também não querem caminhos - querem apenas continuar onde estão: mãos amarradas, olhos fechados, boca cheia de parafusos.
Queremos louvar a pedra e dizer não. É direito daqueles em exílio esperar pelo retorno, ansiar pela restauração da antiga condição. O exilado diz não às marchas, às alegrias forçadas, às bandeiras desfraldadas quando a única coisa que o vento espalha são os nomes dos mortos. Estamos exilados num tempo em que as máquinas têm coração. Ouvimos seu pulsar infernal, sístole e diástole de óleo e metal, rangido de ondas cardíacas. Não somos desse tempo, somos do não tempo.
Até onde a vista alcança, o deserto domina: nos poemas, nas frases de amor, nos palanques e nos púlpitos, nas repartições, nas músicas. Até que o olhar se cansa, procura adiante ou atrás outros vestígios, mas o deserto começou há muito tempo; o que passa é deserto, o que dura é deserto.
Há areia nos calçados, nos alimentos, nas amizades, nas moedas. Os cursos de água secaram e até as metáforas pedem licenças à equação das dunas.
Os que estamos em exílio temos nossa esperança, de que a água brote da pedra e que da água os oásis vomitem novas palavras e que da pedra nunca cesse a promessa: de terminar o tempo.

XIV
O que nos é próprio não é nosso, pois é comum a todos. Posso reclamar como meu um átomo ? Posso dizer minha a água que alimenta meus rios, os minerais de minha ebulição ? E o que seria de nós sem tudo o que nos forma ? Nada é nosso, nem mesmo a mensagem secreta do que somos. Somos Édipos sem pecado nos olhando a cada dia num novo espelho e cada um nos dá uma outra resposta. Posso reclamar dos muitos que me habitam ? Não, porque sou universo.
A mesma matéria material alimenta de uma caldeira ao motor de um quarteto de cordas. Ânima, que o tempo não obstrui porque é impotente contra o fogo; bíos que a palavra não esgarça porque se multiplica; zoé que não se corrompe porque tem em suas mãos o silêncio e a paciência para se expandir.
Diferente como as notas de um violino e os lamentos de um vampiro nossa pedra assoma suas máscaras.
O que nos é próprio é comunhão.

XV
Nossa arte é a de elevar a pedra à plena consciência de si mesma, roubando-a assim das garras da mecanicidade, resgatando-a de entre os mortos, aqueles de pele verde, olhar sem flama; por isso é uma arte mercurial, de Mercúrio, o Hermes romano, o deus ladrão, o psicopompos que resgata os mortos do Hades.
Mercurial também porque a pedra é mercúrio, pedra líquida leitosa que sempre procura escapar. Nossos maiores representavam a pedra como sendo o Hermes alado a quem um Saturno envelhecido vinha lhe cortar os pés, onde as asas dele habitam. E quem é esse Saturno, senão o ordenamento que fazemos da pedra ? Quem é esse Saturno senão o condutor, o princípio antigo que dirige nossa vontade para com todo ardor buscar a liberdade ?
As asas das quais Hermes é desprovido nascerão em nós. Quando pela ascensão da pedra nossa natureza alada se revela, assumimos nossa predisposição pela liberdade e pelo espaço. Rompemos os limites impostos pela gravidade mostrando que a densidade é uma atração da aparência, mas a aparência pode ser superada.
sobretudo, acima de todas as coisas, é preciso não perder nenhum centímetro da pedra, que pelo acolhimento cresce e nos liberta. As chaves estão na própria natureza, que por ser vasta, esconde-as. dizem que há na Romênia pedra misteriosa (trovants) que cresce e se multiplica ao contato com a água. Ora, a natureza também sabe representar e essa pedra é o símbolo de que a água faz crescer os fundamentos do mundo e de nós mesmos, de que é possível acumular a força da matéria pelo poder fermentativo da água; e o que é a água senão um sêmen universal e o que é o sêmen senão nossa água ?

Pedras romenas chamadas de Trovants
Esse prodígio romeno nos mostra que a natureza tem sua linguagem e de que é possível ao homem restituir a si mesmo a liberdade perdida quando da queda na razão. Na medida em que o tempo passa nos tornamos mais torpes, quanto mais estimulados nossos sentidos se embrutecem: já não somos capazes de enxergar nem o mais evidente, quiçá um dia precisemos de máquinas para nos dizer o que está à nossa frente, quando na verdade temos em nós as possibilidades do super-homem nietzscheano. As forças das trevas querem nos confinar sempre no mesmo horizonte, nos mesmos metros quadrados onde transitamos entre o trabalho e a sensorialidade, entre a mecânica e o sem sentido.


XVI

Não basta saber da importância da pedra, é preciso desejá-la, é preciso querê-la, é preciso aspirá-la, é preciso amá-la, com amor  simples, com o coração sincero, subir ao leito não somente com a intenção de grandes coisas mas com a vontade simples de amar sem subtrair o outro, amar para ter o outro ao lado e dentro de si, amar como quem anda à beira de um precípicio, como quem pisa no fio de uma navalha, mas também como quem brinca, como se nada fosse sério, ou tudo fosse tão sério que o resultado de qualquer brincadeira levasse à morte. Alegres, mas humildes, conseguiremos reavivar o fogo, iluminar a "lápis" até que o rubro a destile. Com movimentos lentos e sem hipocrisia, é possível segurar as asas de mercúrio. É como voar num dragão. A mulher é a serpente portadora da flama, é preciso amá-la sem falsidades, só assim a pedra poderá ser cultivada, só assim evitamos perdê-la; a arrogância leva ao desespero; a humildade, a alegria e o coração sincero fazem a pedra crescer no fogo do homem e no coração da mulher, e quando o homem a penetra, quando o pênis desliza pela vagina, o amor será o portador da luz, então é preciso deixar-se conduzir pelo amor.
Nesses dias vazios o sexo virou uma espécie de arena romana; é preciso esquecer da arena e lembrar da infância para refinar o sêmen com grande indústria.
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27 Abril 2011

O Tratado da Pedra

VII

Os homens dessa época só reconhecem aquilo que se submete a seus caprichos, à ânsia devoradora de tudo submeter ao controle de uma ganância sem tamanho: querem uma natureza dócil, submissa à violência, complacente com a falta de sentidos e propósitos que tomou conta do humano; cometem o absurdo de imaginar uma natureza totalmente subjugada pela violência de explosivos e metais como sendo um ideal a ser alcançado - a natureza desfeita pela fúria da mecânica.
Não sabem que os dias de fúria que virão são o fruto da falta de amor. A ignorância eloquente dos senhores desconhece a simplicidade do amor: ele sustenta os elementos, organiza o tempo, estabelece as convenções dos astros e o desejo do futuro.
Por isso não reconhecem a Pedra ou mesmo a renegam, porque desconhecem o que não seja artifício, pirotecnia, vagido da aparência; nossa pedra é simples, às vezes somente gota de sal num oceano de miasmas. Mas o universo é perpétua espiral, enlace de espirais onde as coisas se alternam no tempo-espaço: a gota é um universo para planctons e outros, o Everest é mera pedra, há rios nos corpos, corpos nos rios, do arco-íris ao olho há puro diálogo entre pares.
Nossa pedra é simples, magna. Quando fecundada se multiplica em pedras, quando guardada se liquefaz em fogo, de fogo em ave, de ave em anjo. À noite, clama pelo sol da galáxia, de dia aspira o perfume das flores da lua; mistura o sutil ao denso, coagula o tempo para extrair dele os sinais de sua libertação; enquanto faz-se pedra engendra novas vestes para as núpcias da liberdade, tecidos de musgo, pele de serpente - na aurora brilha a pedra-sol.

VIII

Estive a ver o fastio como um sintoma dos dias presentes; as gentes se cansam de tanta letras, do deus morto e do nonsense que a vida tornou-se em sua infatigável rotina; querem sair para algum lugar, mas nada lhes apetece, porque nada faz sentido: seus olhos estão fechados para tudo que não seja dinheiro ou não se venda, pensam que podem comprar o sentido das coisas com drogas baratas, com a sordidez dos pequenos vermes. O sentido das coisas está nas próprias coisas; palavras são fulgurações do real, elas não o falsificam, são a luz que dele emana, refletida num mosaico de espelhos. As palavras dizem do sentido sua chave possível. O tempo passa e as chaves aumentam, o real cresce e com ele as possibilidades de sentido. Damos novos nomes às coisas novas, renomeamos as antigas tentando estender a mão para a verdade. O vulgo só quer imitar  o movimento das máquinas, nada vêem do muito que paira ao redor: nem os cabelos das nuvens nem as espirais nem a língua dos beija-flores.
Grande coisa é perder o medo de sonhar, deixar-se levar pelo jogo cósmico, aventurar-se pelas ruas, tomar de assalto nossa própria cidadela: forjamos nossas prisões e as religiões aumentam seus muros.
Somos parentes dos pássaros, amigos das serpentes, não precisamos de túmulos nem de igrejas, não precisamos de corpos trucidados nem do apego à dor, o que precisamos é de espaço - para abrir as asas, para correr, para testemunharmos que a curvatura do tempo-espaço é a mesma do útero, para gritarmos como as aves e baleias quando incontidas pela felicidade.
Tudo é vasto e infinito, dos dedos às galáxias há fios que reúnem o homem às estrelas. Um dia seremos chamados para um grande banquete, quando a pedra nos houver convertido em faunos-poetas, com pernas de bode e a sabedoria de quem já foi fera, sentados a mesma mesa onde os deuses apreciam o vapor das lembranças, onde as estrelas acendem suas chamas, onde a escuridão decide seu silêncio. Seremos cúmplices de grandes auroras.
pois a Pedra não nos deixa sós.

IX

As pessoas arrancavam pedras para barricadas, movidas apelo desejo incandescente de transformar a vida em aurora. Queriam a redenção de fora por um desejo de dentro - essa ânsia de que nada nos detenha, esse anseio por lugares sem muros ou fronteiras - é o pulsar da própria vida a instigar os seres.
Acontece que as pessoas são velhos morcegos - preferem a escuridão das cavernas à incerteza da liberdade - e procuram fora o que clama dentro. Às vezes o que clama é a natureza naturada e fabricamos corpos buscando a união pela continuidade; outras é a natureza naturante e aí o que queremos é a natureza dentro de nós - a potência dos rios, a grandeza dos ventos, a antiguidade das rochas, a paciência do fogo; tudo num grande carnaval. A ordem vem assim, com mulheres de pernas nuas carregando estandartes, a beleza dos ventos, a beleza dos nomes, a beleza dos seios.

X
O quid das coisas é um quid vital, mesmo o das palavras. As coisas não precisam de justificativas para existirem, o próprio existir é a razão; expansão e continuidade são a tônica da pedra. Para alguns, o mais longe é o caminho desejado, e quando ele o percorre encontra pistas e sinais de sua própria existência em lugares onde nunca passou - procurando o longínquo emula a natureza mais profunda, a profusão de aves. libélulas e baleias desconhecem o que quer que seja fronteira - e encontrando-a, vê a si mesmo. Para outros, só o próximo é reconhecível, o que vem com os ventos é estranho, temem a abundância e se guardam criando pequenos caminhos que possam repetir sem cessar.
Em ambos a razão vem de fora: a conexão que se cria entre novas formas de vida e novos seres, a razão está em descortinar horizontes ou em confinar a esperança para que não perca em tempos sombrios.
O quid das coisas é a Pedra, seja numa estrela de neutrôns ou num planeta d'água. A Pedra é escorregadia, cheia de pernas e caudas, ela é moto-perpétuo.

XI

Não acredito no progresso, não acredito nos tabeliães, não acredito no destino manifesto nem nas doutrinas de salvação; não acredito no inferno, não acredito na ausência da dor, não acredito em deuses ou idéias fixas; não acredito na métrica ou na retórica. Não acredito em qualquer silêncio maior que zero nem em qualquer sexo maior que dois; não acredito no homem sem a palavra, não acredito em ascensões mecânicas nem em músicas mecânicas nem em amores mecânicos nem em sexo  e afetos mecânicos, não acredito na humanidade das máquinas, não acredito no silêncio das máquinas. Não acredito numa terra sem chuvas, não acredito em nomes com muralhas, não acredito em trevas eternas.
Só acredito na Pedra, a pedra úmida, o orvalho encharcando o mineral, o bater das asas das libélulas cruzando a tarde da África.

12 Março 2011

O Tratado da Pedra

Passo a publicar a partir de hoje um novo texto, na verdade uma obra em processo, O TRATADO DA PEDRA, uma alquimia do sonho e da revolução, uma abertura, como se o horizonte houvesse sido rasgado, na surpresa de uma noite...


I
Diria que a nossa pedra é a raiz sem gelo do âmbar. Como um sal vertical que se acumula pela purificação e ascensão da bondade.

II
Tem o mesmo sumo das flores estivais, a mesma secreção sobre a qual se pode erguer uma casa. Lenta, cresce qual o anel das árvores, a seiva mineral secreta bailando entre o canal de cobre e cristal.
Sem nome quais os rostos das crianças, bela feita a asa vermelha da fênix cruzando a manhã, essas pombas no altar de Vênus, os peitos da deusa na ansiedade do fruto em gestação.
Mil noites tivesse não acabaria de dizer seus nomes, mas é ela, a pedra, sobre ela os fundamentos do mundo, sobre ela as intenções, os desejos de porvir, sobre ela o orvalho que escorre das flores em compasso ternário, triângulo de respostas.

III
Alguma vez, nos muros de pedra pomes de uma cidade antiga, gravei palavras a essa similares, tão longe no tempo que o espaço entre as memórias assemelha-se a uma pausa numa sinfonia de milênios.
Outros rostos e a areia se ressentia de sal, de nossos passos não restavam vestígios; por quê o fiz ? Porque a escrita de fora emulava a de dentro: gravando nas pedras o segredo da pedra, fixava em meus ouvidos o martelo da verdade, que nascimento algum poderia acabar. Porque pedras-pomes são ossos do mar, dos vulcões, e neles circula o sangue da pedra, esperando o vento redentor.

IV
Chamarei as testemunhas, que bebem diariamente do fogo líquido que anima a pedra. Elas dirão que esse é o fogo selvagem que precisa ser purgado de sua bílis até ganhar o vibrato de uma trompa de caça. A da direita diz doces são os mistérios da carne e as esquerda lembra que a haste fincada no triângulo conecta a terra ao céu e que anjos se formam quando a haste avança sobre o fogo e o triângulo se inunda de orvalho: a pedra molhada, o broto do pão.

V
Preciso de palavras para a fornalha ? O testemunho da verdade acelera o rio: a água polida, os seixos-letras amplificam o eco; no moinho das coisas, a água se acelera em fogo, o dúplice testemunho reverbera o dito: nossa pedra é antiga e sempre nova - à porta de Ishtar, um casal arrulha na pedra cúbica.

VI
Cada nome é passagem, cada imagem, mosaico. O que se diz pedra é a soma de muitas subtrações. Bruta, beira o rês do chão; lavrada, escoa a voz em eco de dimensão em dimensão. Pulsar que a escritura captura. O grafite de sêmen nunca poderá ser apagado. Outros pedem nomes com registros e identidade, como se os nomes portassem sendas de ruas claras, chamam de obscura a fala que não se abala pela claridade. Bem sei que os caminhos onde as palavras escorrem rebeldes são vias onde a vida se procria, onde a pedra fecunda a pedra, onde o musgo aninha o pássaro, onde o orvalho desce da teia para os olhos das estátuas: nomes são passagens do cheio para o infinito, o caminho é selva de sargaços onde as palavras se emaranham: água ventre novelo.
Os que conhecem  a pedra saberão seu rosto de plasma, sua alma de flecha, seus olhos de falcão e não será minha boca a portadora de fórmulas: estou entre os inocentes e a morte prefiro a deduzir a raiz cúbica de Pi de um Cm³ da pedra. Seu peso é de água e ar, seu peso é de água e ar, seu peso é de ar e fagulha - lança no labirinto.

14 Dezembro 2010

Dois Outros Poemas

FADA
    


Como em antigas histórias
nossos nomes se confundem


entre rios e rendas
o amor bebia sua história


em lugares insuspeitos
em paragens distantes


éramos mago e huri na Arábia Félix
éramos profeta e musa
em antigas terras gregas


tão próximos nossos cheiros
a música dos nossos corpos


quando longe
me manda sinais


de tua ausência
de teus sonhos


temas da memória
do muito que passou


da fome dos teus gestos
sinto, recebo


cada fábula que emana
de tua silenciosa presença


escuto tuas vozes
na diversidade dos ventos


na intrincada rede
da voz dos muitos bichos


do dialeto das folhas
do enigma das marés


em muitos anéis do tempo
esse espelho
onde nos damos as mãos


tu e eu em muitos hojes
tu, já que existo em ti


tu, cujo cheiro atrai a inveja das flores
tu, cujo nome amor
existe além de mim.




SERTÃO


Esse lugar tem nome de areia
no azul que devora a tarde


pátina no tempo, palavra
a esconder geografias


tesouro na memória que guarda
o rosto da curva dos ventos


assombroso mapa
de ausência e gozo


saber das pedras 
o que as predicam


saber da argila
sua quididade


ouvir da água a ternura
que se derrama nas folhas


sequestrar no hemisfério
o rastro dos cometas


na alba o cabelo das estrelas
dentro, fora, acima em mim


esse lugar mil nomes
essa certeza de sertão.





30 Novembro 2010

Descida de Ishtar ao Inferno

Ela desceu solene ao mundo sombrio
nem os mortos poderiam
interrompê-la
ave que se despluma nas trevas 
em cada portão eles diziam
deixa aqui teus gestos se queres prosseguir
folha que o vento carrega era seu nome
na senda cada dia mais estreita
palavras densas sufocadas
cortavam sua pele nácar
em cada portão eles diziam
deixa aqui tua voz se queres prosseguir
era lua nova no submundo
barco de papel que a bruma leva
sorriso de corça assustada
ela descia
de abismo em abismo
em cada portão eles diziam
deixa aqui teus olhos se queres prosseguir
não havia primaveras
não havia hibiscos nem jacintos
seus pés sangravam sobre vermes
sua pele era seda
tateando estalagmites de metal
em cada portão eles diziam
deixa aqui tuas lembranças se queres prosseguir
nua, serpente que troca de pele e se devora
seus dedos irradiavam luz
abaixo, soterrado estava seu destino
em cada portão eles diziam
deixa aqui tua vontade se queres prosseguir
o vento fustigava esquecimento
de seus seios o leite derramado
brotava flores no inferno
aonde iria só seus pés sabiam
de si ela não era mais
em cada portão eles diziam 
deixa aqui teus sonhos se queres prosseguir
fatigada como nuvem de chuva
insone como os lobos
o fogo atormentava seus cabelos
mundo era sinfonia
de nãos salmodiados
em cada portão eles diziam
deixa aqui teu nome se queres prosseguir
ela desceu ao centro do nada
nua
criança que volta ao útero
desceu às fronteiras
onde o baixo encontra o alto
ao longe escutou leve pulsar
duas notas tais vozes de crianças
lhe chamando
entre as pedras no infinito
em secreto estava
o coração

24 Novembro 2010

As Coisas-Pessoas, As Pessoas-Coisas

Pensando sobre a relação entre o criador e a criatura nessa sociedade tão marcada pelo vazio, é curioso pensar que paulatinamente nossa humanidade se esvai pelas frestas da história e que provavelmente a próxima revolução a ser travada será para afirmar nosso senso de humanidade frente à humanização dos objetos. Tal humanização não seria nenhum problema se não fosse feita em detrimento das pessoas; poderia significar talvez nosso desejo de nos refletirmos nos objetos, torná-los mais dúcteis à nossa sensibilidade num mundo povoado deles.
Mas não é isso o que acontece, Há séculos o humano vem perdendo sua dimensão mítica e sua dignidade; primeiro ele foi reduzido no discurso filosófico - como o fez Descartes, para depois ser reduzido à servidão maquinal nas mãos do capital. Porque o humano foi se desnaturando para se adaptar e atender às engrenagens produtivas: a regularidade, a constância, a disciplina, a renúncia às paixões ou o controle extremo das pulsões atrofiaram nossa natural irregularidade, nossa capacidade de expectativas súbitas e êxtases de beleza foram tomadas por impulsos previamente estimulados e por uma sensibilidade domesticada que não nos possibilitam mais nem perceber as cores do cotidiano, os tons do crepúsculo, o som das asas das libélulas.
Os sentimentos foram enquadrados nas necessidades dos grandes esquemas produtivos, mecanizados, requeridos somente quando necessários à lógica das corporações (nos locais de trabalho) ou à lógica do consumo. Assim, nos mecanizamos; nós que éramos a imagem e semelhança do criador nos tornamos sombras de nós mesmos; somos nosso próprio autômato.
Por outro lado, o mundo dos objetos foi se humanizando. Metaforicamente, nossa vitalidade foi sugada para o universo das máquinas: impressoras falam com doce voz de mulher, robôs são projetados com a peculiaridade de conseguirem ou tentarem aprender a expressar ficções de sentimentos; sem falar nas cópias que já foram criadas, robôs com aparência tão humana que poderiam - não fosse a ainda imperfeição dos gestos - nos enganar.
Me pergunto até quando conseguiremos perceber essas diferenças. O humano de hoje é mais uma caricatura de si mesmo, nem uma fera ou pássaro enjaulado, mas uma pessoa-coisa, descaracterizada pelos processos produtivos e pela falta de sentidos numa sociedade incapaz de produzi-los, onde a justificativa se encontra em sua própria mecanicidade, em consumir-se estaticamente no tempo-espaço, sem expectativas, sem esperanças. As pessoas das imagens de publicidade são somente simulacros da vida real, emulações sublimadas destinadas a estimularem as pessoas reais a encontrarem um sentido na ilusória liberdade de consumo.
É uma sociedade fetichizada; não somente o fetiche do dinheiro: ao modo de certas sociedades ditas "primitivas" - como diria Jung - nossa libido é transferida para os objetos, só que nossos objetos são desprovidos de relações simbólicas ou míticas; ainda que o discurso mítico-simbólico esteja presente na publicidade, ele é um discurso falso, sem lastro real: assim, por exemplo, as imagens associadas à liberdade - de pássaros, viagens ou velocidade, não dizem respeito à liberdade real, mas a uma falsa projeção da liberdade. O discurso publicitário é o discurso dos simulacros.
Os objetos tornam-se coisas-pessoas, mas essa pessoa é somente a máscara, persona com que os objetos são dotados para esconderem sua contingencialidade produtiva: emulando o humano, a indústria procura capturar a atenção dos consumidores, que buscam fora o que não mais encontram em si.
Como todo produto social, essa movimentação da pessoa à coisa não é um movimento natural: é oriundo de complexas relações de produção, de um arcabouço jurídico e de um discurso que em nome de interesses de classe tornaram alguns pressupostos econômicos e de valor em pretensos universais: a lógica produtiva e mecanicista de nossa sociedade de mercado não é um valor universal, nem no tempo nem no espaço. A ambição predatória, a relação pragmática - e não lúdica ou poética - com o espaço, com a natureza ou com as pessoas não são valores universais nem desejáveis.
Na medida em que nos desnaturamos nos mecanizamos e maior se torna o abismo entre nós e nossa natureza. A lógica dessa sociedade exige de nós um permanente exílio da nossa natureza, da nossa sensibilidade. Nos tornamos estranhos para nós mesmos.
E as coisas nos sorriem, nos felicitam, nos dão bom dia, nos dizem obrigado, enquanto nós, mudos e estáticos, contemplamos com angústia nossos espelhos, sem saber mais se o que vemos é uma ruga ou uma trinca no material.

09 Novembro 2010

A Paixão Pelos Objetos

As coisas não são para nós, nós é que somos para elas. O velho Marx, ainda no século XIX, percebeu esse elemento da natureza do capitalismo, ao dizer:" O capital cria não somente um objeto para o sujeito, mas (também) um sujeito para o objeto."  De fato, em nossa época fica patente que o que consumimos, mais do que atender a nossas necessidades, na realidade servem para que, através do consumo, atendamos às necessidades do mercado. O mercado fabrica realidades e necessidades. O mundo do consumo é dono da sua própria virtualidade; ele retroalimenta permanentemente esse universo fetichista com histórias, soluções e casos que dão a sensação, ao consumidor, de que essa lógica de consumo é patente e real em suas vidas e não somente na cadeia produtiva. Assim  se glorifica a obsolescência das coisas justificando a necessidade de trocar de celular, computador, aparelhos de som, carros, etc, mesmo quando os objetos que compramos ainda se encontram em plena vida útil.
É claro que esse é um dispositivo de mercado, mas além disso, parece que ficamos enredados nessa lógica e no lugar da nossa efetividade e liberdade como sujeitos sociais - que não existe nessa sociedade -, colocamos a nossa paixão pelos objetos; paixão não no sentido amoroso, mas no sentido spinoziano, de que somos afetados negativamente, passivamente, pelos objetos. Não é uma escolha, é uma compulsão a que cedemos; em larga medida a indústria cultural e o marketing colaboram com essa paixão e de certa maneira a indústria cultural procura humanizar os objetos.
Não são poucos os filmes em que máquinas ou robôs são dotados de sensibilidade, senso de indagação ou mesmo curiosidade humanas - como em Wall-e, Eu, robô, 2001, etc, como se houvesse uma movimentação, da sociedade para a cultura, de transferir nossa humanidade para o artificial e o inorgânico. Esse movimento indica a ruptura máxima com a natureza pela tentativa de obter o controle total do humano justamente pela sua desumanização, pela sua desnaturação, pois a melhor característica do humano é sua imprevisibilidade, sua irregularidade, sua naturalidade.
Essa paixão pelos objetos é  o ponto máximo da nossa alienação, de que nos tornamos estranhos para nós mesmos e transferimos para os objetos nossa energia, nossa efetividade, nossas pulsões. O fetiche ainda é pelas coisas, como se elas possuíssem nosso maná, nossa alma, E de alguma maneira possuem, enquanto são resultado do fruto do nosso trabalho, que consome nossas energias, nossa sensibilidade. Aqueles índios que se recusavam a se deixar fotografar com receio de que a máquina sequestrasse suas almas não deixam de ter razão: de fato, as coisas nos possuem, elas são mais importantes que as pessoas.
Isso não é uma paranóia política: observem como as pessoas tratam seus carros e seus gadgets e como tratam a outras pessoas. As coisas são super dimensionadas, hipervalorizadas, assim como os processos e instituições, em detrimento das pessoas.
Há uma espiral que vai das práticas de mercado e da cultura para as relações pessoais, onde as pessoas são desvalorizadas e as coisas são elevadas a um patamar de quase humanidade. outro dia, num comercial de automóvel, diziam que o carro deveria estar num museu como obra de arte; tomando um desses refrescos artificiais ocorreu-me pensar que ele não foi feito para mim, eu é que fui feito para ele, pois a verdade é que, quem precisa tomar um pó químico potencialmente perigoso com sabor de nada ? Mas vocês já viram as propagandas de refresco ? O quão saborosos eles são na boca de mulheres lindas e deslumbrantes ?
Curioso é que lutar contra essa paixão pelos objetos significa exilar-se no tempo. A medida de nossa época é a medida das coisas; a qualidade e o preço dos objetos serve como parâmetro para a qualidade e o valor das pessoas; os ricos compram carros, celulares e sutiãs com diamantes; a classe média compra carros, celulares e sutiãs, sem diamantes mas com grife; os pobres compram carros (quando podem) e celulares, usados e com dívidas, mas todos compram e se sentem irmanados, no mesmo paraíso das coisas, no nirvana da materialidade plena.
Nos sentimos seguros quando consumimos, parece que só assim nos reconhecemos como sujeitos. Essa é a máxima liberdade do capitalismo. A outra liberdade possível é a do ostracismo, do exílio, pois quando não participamos dessa pretensa comunidade de consumidores somos enxotados, como se possuíssemos alguma doença grave e contagiosa.
São poderosos os mecanismos de dissuasão e pressão, que tentam a todo custo tornar  aparente uma liberdade que não existe; nossas escolhas se dão entre espadas e no fim das contas os objetos tomam conta de nós, em nome do Deus mercado.
Assim, existimos para as coisas e elas tomam conta de nós.